Criadores de marés

“Mas quantos momentos de ócio tens por dia?” foi a pergunta que me desarmou e me deixou, uma vez mais, a pensar não só no sentido (propósito) da vida mas principalmente no sentido (direcção) em que a levamos.

De sorriso vitorioso e convencido de que seria uma conquista gabada, tinha acabado de contar à Rita que este ano voltei a ler a um ritmo simpático e que o formidável “Baiôa sem data para morrer”, do meu amigo Rui Couceiro, era já o sexto livro em que mergulhava desde Janeiro. “Isso é bom”, respondeu-me ela sem o entusiasmo esperado, aquele “mas” escrito na expressão antes de lançar a venenosa questão com que iniciei este texto.

A Rita, ou Dra. Rita consoante o apego de cada um pelos títulos, tem sido uma das peças importantes desde que concluí, quase no limite, que estava na hora de ter tempo e espaço para treinar a estabilidade da mente, pouco depois de ter recomeçado, também, a tentar tratar do equilíbrio do corpo. Sei que um dos seus papéis é este, de me deixar a reflectir e, a partir daí, adoptar medidas em busca de um estilo de vida mais são, mais leve, mais prazeroso.

Mas nem todas as questões ecoam da mesma forma e esta, de quantificar os momentos diários de lazer, ainda não deixou de pairar no último piso do edifício. Num dia com 24 horas, e se, optimisticamente, dormirmos 8, sobram 16 para dedicar às inúmeras solicitações do mundo moderno. São 960 minutos entre trabalho, família, trânsito, amigos, tratar disto, arranjar aquilo, um sem fim de pormenores, pormaiores, questiúnculas, grandes interrogações… quantos desses minutos estamos a utilizar só para desfrutar?

É tanto o tempo que vivemos a cumprir obrigações, que raramente temos sequer oportunidade de pensar em única e exclusivamente gozar. Não precisam de ser horas; são aqueles cinco minutos a ler antes de adormecer, os 15 a olhar para o mar, os dois a ligar para um amigo que não vemos há meses, os 60 a praticar um desporto que apreciamos, um que seja em qualquer coisa que não esteja absorvida pelo imenso rol de tarefas que nos são impostas (tantas vezes auto-impostas).

é agora o tempo de viver, de criar momentos que sejam nossos, que nos façam sorrir e, em última análise, nos protejam, ainda que momentaneamente, da pressão que carregamos aos ombros

O momento pode até parecer menos oportuno: está difícil pagar casa, aqueles dois cêntimos anunciados com pompa para a descida dos combustíveis de pouco servem, as compras no supermercado pesam cada vez menos no carrinho e cada vez mais na carteira. É evidente que passamos por um período pouco auspicioso e que provoca mais facilmente dores de cabeça do que vontade de correr alegre e levemente ao sabor da brisa do outono.

Não estarei, porém, a dar-vos uma grande novidade se disser que o tempo não estica e que por muito que possamos adiar o pagamento de juros no crédito à habitação, não vamos recuperar esses anos no cartão de cidadão (“bilhete de identidade” soava tão mais poético…). A Rita tem toda a razão: é agora o tempo de viver, de criar momentos que sejam nossos, que nos façam sorrir e, em última análise, nos protejam, ainda que momentaneamente, da pressão que carregamos aos ombros.

É difícil? Claro que é. O escritório até vem connosco no bolso, os pedidos, sempre tão urgentes, caem a qualquer hora, os assuntos de trabalho sentam-se à mesa de refeição, as contas por pagar estão debaixo da almofada. No meu caso, inclusive, os momentos profissionais confundem-se com ócio e os colegas com amigos, o que, sendo quase sempre bom, torna a equação mais confusa – é difícil distinguir se estou a pegar no baixo eléctrico para me divertir ou para cumprir a função; ou saber se uma simples conversa sobre a vida não vai desaguar em ensaios e concertos e logísticas e facturas e afins.

Se tivermos de começar à força, que assim seja. Foi ao proibir-me de levar o telemóvel para a cama que abri a oportunidade de voltar aos livros; foi ao inscrever-me em aulas que tirei margem de manobra às desculpas para não jogar padel uma vez por semana; foi ao reservar as capas dos jornais diários para o momento do pequeno-almoço que passei a tomá-lo sentado e com mais tempo. Irónico que tenhamos de obrigar-nos a perceber que afinal o relógio nos dá folgas, assim queiramos tê-las.

E o caminho continua, porque ainda está longe de ser satisfatória a resposta àquela pergunta ali de cima. A desfazer mitos, a esquecer justificações que nunca deixaremos de ter, a partir a pedra de preconceito que nos impede de valorizar a saúde mental como valorizamos a saúde física. Porque é disso que se trata: de estado de espírito e do estado do espírito, de podermos chegar aos momentos de balanço, cedo ou tarde, com mais realizações do que arrependimentos.

Já aqui escrevi sobre a nobre arte de “pausar só”, que sabiamente me foi transmitida por Didi, um jovem são-tomense que, entre os dias de aulas e os de guia ocasional no Ilhéu das Rolas, usa aqueles em que o mar não permite uma coisa nem a outra para pouco mais fazer do que, sozinho ou com os amigos, aproveitar o mero facto de existir, de viver. Com mais ou menos ondas, saibamos também ser criadores das nossas próprias marés.

Ricardo Fidalgo
Músico