Banhos de luz

Acabo de chegar de férias. Desafiei o relógio e viajei para onde se está acordado quando cá se dorme e onde se dorme quando… quando nos apetece, são férias!

À primeira paragem, vi centenas de barcos na fila para levar petróleo, como se fizessem do mar uma sala de espera gigantesca e houvesse, como no talho, quem fosse chamando pelas senhas, com três de tolerância porque pode ter ligado alguém no preciso momento em que chega a nossa vez.

Mergulhei, depois, num assomo de modernidade: prédios enormes, todos com aspecto de recém-inaugurados, gruas ao alto, um piso extra aqui, um bosque a meio do arranha-céus (juro!), árvores de Natal com assinatura de marcas chiques, escadas rolantes que correm mais do que nós, teleféricos que sobrevoam ilhas inteiras, um centro comercial em cada estação de metro. E a piscina, “aquela” piscina, a do Instagram, a que dá fotografias com “likes” garantidos.

Dias mais tarde, outra realidade. Bem vistas as coisas, podia até ser a mesma cidade mas com umas décadas de degradação em cima. Porque também se perde de vista o topo dos edifícios, tantos e tão altos e com elevadores que, em segundos, nos dão acesso a paisagens fabulosas. Mas aqui cheira a país real, há gente rica mas mais gente pobre, há sítios limpos e sítios sujos, há no ar uma mescla de aromas que nos são menos familiares e nos fazem andar, andar, andar (e andar, andar, andar…) para descobrir os cantos todos.

Também há calor, muito calor; à primeira quebra de tensão, ficam ténues os conselhos médicos antes da partida: como sabem, nesses países, é de evitar qualquer bebida com gelo, principalmente na rua. Pois, Sra. Dra., mas as bebidas sem gelo passam a chá em dois minutos. Com mais ou menos cuidados, e como o tempo por ali vai ser escasso, conseguimos trocar os mergulhos na piscina por mergulhos noutras culturas e noutras crenças, até chegar a hora de apanhar o avião.

O destino seguinte foi pensado como férias das férias. Uma ilha, muita areia, calor tropical, água do mar à temperatura da água da banheira. Do aeroporto para o hotel, o taxista faz o seu papel e deixamo-lo falar, apesar da convicção de que naqueles dias queremos limitar as caminhadas ao percurso entre a toalha e o oceano: podem ir ao cimo daquela montanha de teleférico, ou da outra de carro, ou caminhar na natureza, ou praticar desportos aquáticos. Está bem, está… Ou, apesar de menos interessante, podem apanhar um barco até uma ilhazita que pertence ao país vizinho. Como?! Menos interessante?! Ora aí está a única actividade capaz de nos fazer mexer.

Vamos à tal ilha, não cabem carros ou autocarros; só motas, de todos os feitios e lotações, a percorrerem freneticamente as ruas estreitas e pejadas de turistas, locais, turistas que passaram a ser locais, locais que desejam ser turistas. O mar também está cheio de barcos, tantos que é preciso procurar o espaço certo para ir a banhos; mas aqui não são navios à espera que lhes chamem a senha; são pequenos botes alcançáveis à distância da “água pelo joelho” e que tanto nos transportam para outra ilha como, simplesmente, nos levam para a praia seguinte se não nos apetecer caminhar ou ter uma aventura surreal naquelas motas conduzidas por loucos.

O que trouxe destas férias excede lugares, prédios que tocam nas nuvens, piscinas infinitas ou motas a todo o gás. Trouxe pessoas, trouxe genuinidade, trouxe simpatia.

Foi Singapura. Foram Kuala Lumpur e Langkawi (Malásia). Foi Koh Lipe (Tailândia).

Mas podiam ter sido outros sítios quaisquer, porque tudo o que contei atrás é muito menos relevante do que o que vou contar agora.

O que trouxe destas férias excede lugares, prédios que tocam nas nuvens, piscinas infinitas ou motas a todo o gás. Trouxe pessoas, trouxe genuinidade, trouxe simpatia. Gente que sorri quando nos encontra ou quando nos aborda, que quer saber de onde somos, se estamos a gostar do sítio, se precisamos de alguma coisa, se passamos bem.

É curioso perceber que por muito que se voe ou se navegue, por voltas que se dê ao relógio, GMT + ou -, aquilo que nos marca pode ser encontrado à porta de casa, na fila de um supermercado ou na repartição de finanças. O que realmente fica é a bondade e a empatia, a forma como nos ligamos aos outros. E se for preciso ir ao lado de lá do mundo descobrir isso, então que seja. Até porque há uma reciprocidade nestas sensações que não devemos ignorar.

Há dias, numa conversa com o maior viajante que conheço (122 países visitados e não vai ficar por aqui), ele dizia-me que, mesmo em cenários de pobreza, muitas vezes os locais valorizam mais um gesto ou uma atenção genuína do que propriamente bens materiais. Claro que estes bens são úteis e, podendo, chega a ser nosso dever partilhá-los com quem precisa. Longe e perto, há muito a fazer no que toca a ajudar os outros.

E claro que me soube bem apanhar sol em Dezembro em praias dignas de filme. Mas a vontade com que venho é a de espelhar aquelas almas que sorriem ao falar. Almas como as que encontrei na Ásia, antes em África, antes ainda noutras paragens. E como também há cá, claro, que exemplos gigantes temos (até sempre, nossa estrela maior). Mas, às vezes, é preciso relaxar e baixar a guarda para nos deixarmos tocar por esses verdadeiros raios de luz. Que época melhor para o fazermos do que a que se aproxima?

Ricardo Fidalgo

Músico