Mas isso vai mudar alguma coisa?

Mês e meio depois e ainda cá estamos a tentar encontrar formas diferentes de explicar que bombardear crianças, jornalistas, hospitais, campos de refugiados, torres de água e civis que seguem as ordens de fuga é errado, não estamos?

Perguntam-me muitas vezes porque me dou ao trabalho de ir a manifestações, de assinar petições, de partilhar imagens, vídeos e apelos praticamente todos os dias nas redes sociais, de boicotar marcas. “Não vais mudar nada com isso”, “Eles querem lá saber se deixas de comprar”, “Os protestos não servem para nada, no fim eles fazem o que querem”, “São todos iguais”, “Não vou deixar de usar essa marca por causa disso”, “Eu até ia, mas o sofá, a chuva, o cão, o sono…”.

Podendo eu encontrar várias justificações que expliquem o que para mim é mais do que óbvio, escolhi para aqui, e porque o debate, o tentar convencer pessoas consegue tornar-se desgastante, alguns factos, alguma estatística. Coisas nas quais, à partida, é suposto confiarmos.

Erica Chenoweth, uma cientista política da Universidade de Harvard, confirmou que a desobediência civil é, de longe, a forma mais poderosa de moldar a política mundial. Analisando centenas de campanhas ao longo do último século, ela descobriu que as campanhas não violentas têm duas vezes mais probabilidades de atingir os objetivos do que as violentas, e que as mudanças foram, efetivamente, alcançadas em mais de metade dos casos. Ainda que muitos fatores possam ter influência, ao que parece é necessário que apenas cerca de 3,5% da população participe ativamente nos protestos para garantir mudanças políticas sérias. A investigação diz mesmo que nunca houve nenhuma campanha que tenha falhado depois de atingir 3,5% de participação.

Ora, isso em Portugal significaria que, para conseguirmos as tais condições para o SNS, para os professores, para muitos de nós em matéria de habitação, “só” precisávamos de ir umas cerca de 367 mil e 500 pessoas para a rua mandar vir de forma pacífica, sem confrontos, sem partir coisas. Utópico, eu sei. Mas pelo menos temos uma meta onde apontar. E , em teoria, vá, 50% de probabilidade de conseguir alguma coisa.

Isto porque, diz Erica Chenoweth, as campanhas não violentas têm a capacidade de “recrutar” mais participantes e provenientes de um grupo demográfico muito mais vasto, o que pode causar perturbações graves que paralisam a vida urbana normal e o funcionamento da sociedade. Ainda se lembram da paralisação dos transportes de mercadorias? Acho que a tática é chamar esses para qualquer causa.

AJ Muste colocava, em frente à Casa Branca, uma vela branca acesa. A dada altura, uma jornalista perguntou-lhe se ele acreditava, verdadeiramente, que ia conseguir mudar alguma coisa. E o senhor terá respondido: “não estou aqui para mudá-los. Venho aqui para que eles não me mudem a mim”.

Não é a quem faz a guerra que nos devemos opôr, a quem devemos chamar à razão e implorar seja o que for. Não são esses que vão destruir o mundo. Quem devemos combater são os neutros, os do “isso é demasiado complexo”, os que acrescentam um “mas” à retórica do “eu sou contra o que Israel está a fazer na Palestina”. São esses a quem devemos chamar à razão, a quem devemos tentar ir buscar para fazermos estes 3,5%. Aos que não mostram a sua oposição à guerra, à ocupação, aos quem ficam no sofá e não gritam, não se mostram contra porque “não adianta nada”. O perigo está nos indiferentes. Nos que mudam de canal, nos que avançam no scroll, nos da opinião formada e irredutível, nos que não se querem dar ao trabalho de ter opinião.

Nestes dias, deparei-me com uma história muito simples e que me deu mais alento. Contava que, todas as noites, durante a Guerra do Vietname, um senhor, de seu nome AJ Muste, conhecido como defensor dos direitos civis, colocava, em frente à Casa Branca, uma vela branca acesa. A dada altura, uma jornalista (em vez de lhe perguntar se ele condenava os Estados Unidos…) perguntou-lhe se ele acreditava, verdadeiramente, que ia conseguir mudar alguma coisa. E o senhor terá respondido algo do género: “não estou aqui para mudá-los. Venho aqui para que eles não me mudem a mim. Não permitirei que o ataque constante e enlouquecedor da insanidade diminua a minha humanidade. Continuarei a conhecer a verdade e a dizer a verdade. Farei a minha pequena parte – todos os dias – para permanecer humano, para permanecer desperto e terno, para que o mundo não desgaste a minha humanidade”.

Por isso vou, assino, partilho e boicoto, para que eles, os intervenientes, mas os indiferentes também, não me mudem a mim, para que eu não perca a minha humanidade no meio desta loucura. Se cada um de nós não permitir que nos mudem, que nos tornemos indiferentes, acho que seremos muitos. Mais que os 3,5%. Os necessários para não permitir estas atrocidades.

Eu não sei quanto aos outros, quanto a vocês, mas eu não gostava de viver com o peso de um genocídio nas costas. Porque é o que carregaremos se não nos opusermos. Um dia, quando o meu sobrinho vier das aulas de História e me perguntar onde é que eu estava durante o genocídio na Palestina, não sei quanto a vocês, talvez tenham fotos em memoriais, semelhantes aos do Holocausto, com as hashtags #neveragain ou #murronoestômago para mostrar, mas eu vou dizer-lhe que estive nas ruas a gritar contra, mesmo debaixo de chuva. Que assinei as petições a exigir o cessar fogo, o corte de relações, o fim da ocupação. Que boicotei as marcas que apoiaram aquilo. Que tentei usar o poder das redes sociais, correspondendo aos pedidos dos amigos que fiz na Palestina, para ser um bocadinho o eco das vozes e das imagens que nos chegavam e tantos preferiram ignorar ou duvidar, para expor as mentiras daquele a que chamam “a única democracia do Médio Oriente”, as narrativas falsas e cegamente propagadas pela comunicação social, nem que fosse para que uma única pessoa o considerasse e se juntasse. Provavelmente não mudei nada, meu querido, mas eu tentei. E vocês, onde escolheram estar durante o genocídio do povo palestiniano?

Cláudia Brandão
Jornalista