Partidos mas não quebrados

Nota prévia: sei que há uns 18% de (e)leitores – em Espinho, salve! menos do que isso – que poderão sentir-se incomodados com a crónica que se segue. A esses, que com pouco esforço já saberão quem são, só tenho a dizer que continua a haver em Portugal uma esmagadora maioria (sim, por muito que vos custe, são 82% dos votantes) que sustenta valores democráticos segundo os quais eu posso escrever sobre o que me apetecer. Assim será.

Era de noite, um domingo de noite, e ficámos em choque. Mas não devíamos, porque os sinais estavam lá todos. Não cremos na justiça, a saúde tem filas intermináveis, a habitação está incomportável, os professores fartaram-se e fazem greves, ir ao supermercado custa cada vez mais. E já ninguém acredita que os políticos vão arranjar soluções.

Nessa noite de domingo, já madrugada de segunda-feira, aliás, aguardo pelo discurso de derrota de Pedro Nuno Santos e pelo discurso de derrota, perdão, de vitória, de Luís Montenegro. Não consigo focar-me no que dizem, só no coro absurdo que, à frente deles, vaia as perguntas mais incómodas dos jornalistas, como se fossem os jornalistas os culpados pela descredibilização dos políticos; e que interrompe as declarações de duas em duas palavras com cânticos despropositados, como se houvesse alguma coisa para festejar.

Estes coristas ainda vão perceber que o único mérito da extrema-direita tem sido aproveitar as brechas abertas pelos seus partidos para se ir instalando e propagando (curioso como a palavra se assemelha a “propaganda”) como um vírus. É evidente que o povo está cada vez mais desligado de quem comanda os seus destinos por não se rever no estilo, na semântica, nas promessas. Nem no carreirismo político – como é que alguém vai perceber os problemas reais da sociedade se nunca saiu da bolha partidária?

Do discurso de derrota de Pedro Nuno Santos (ou dos poucos momentos em que não o interromperam), salta-me à vista que está decidido a fazer oposição e que não quer “ajudar” o previsível futuro Governo. Em momento algum fala em discutir ideias, em debater posições, em promover consensos numa matéria ou noutra a bem do país. Clubite pura, se ganharam “eles”, então que se safem.

E do discurso de derrota, perdão, de vitória de Luís Montenegro, constato a falta de entusiasmo expectável de quem, se chegar a governar, o fará com a mesma liberdade de um peixe apanhado na rede. O que não seria necessariamente mau se tivermos em conta o regabofe da maioria absoluta cessante… mas o Parlamento acaba de ser “invadido” por radicais, o que muda drasticamente a perspetiva.

“Não cremos na
justiça, a saúde tem
filas intermináveis,
a habitação está
incomportável, os
professores fartaram-se e fazem greves, ir ao
supermercado custa
cada vez mais.”

Li Miguel Esteves Cardoso defender que o resultado do tal partido de extrema-direita é, apesar do crescimento expressivo, uma derrota pesada. E que, perante essa derrota, os seus eleitores vão desmobilizar e voltar para de onde saíram: da abstenção ou, no limite, da frustração. Esperando que possa ser mesmo assim, acho que só acontecerá se os restantes partidos acordarem desse pesadelo dominical com a noção da responsabilidade que acaba de lhes cair em cima. Ainda há margem para fazer diferente, para mudar de estratégia, para pensar mais no país e menos no umbigo. A poucas semanas de festejarmos os 50 anos do 25 de Abril, há fantasmas que aparecem e nos mostram ser tão frágil a realidade que dávamos como definitivamente conquistada em 1974.

E não, a culpa não é só daqueles para quem “antigamente é que era”, nem dos que estavam escondidos, bem camuflados, debaixo do mesmo manto. Tempos esquisitos estes em que (também do lado oposto do espectro?) há quem, por exemplo, sujeite escritores e livreiros a clamar por mais liberdade e pela inversão dos constantes movimentos de cancelamento por tudo e por nada.

Ao tentar conquistar direitos e liberdades, caiu-se no extremo de querar calar direitos e liberdades. Já não se trata de tirar voz aos opressores, trata-se de tentar anular quem pensa ou escreve diferente. E também isso é extremismo; também isso abre fendas; também isso contraria o espírito de Abril; também isso nos faz perder equilíbrio social. Pior: também isso, mesmo que parta do tal lado oposto do espectro, é utilizado pela hábil e ultra financiada máquina que acaba de conquistar 18% dos votos no país. Porque essa máquina é perita em aproveitar e fomentar divisões, detetar e alimentar descontentamentos, polarizar discursos.

O que aí vem é mais dessa receita de manipulação levada ao (e para o) extremo. Já começou como resposta ao “não é não” de Montenegro, agora é a vitimização (alegadamente mentirosa) perante a posição de Marcelo. Assim seguirá, porque evitar a rápida desmobilização prevista por Miguel Esteves Cardoso só será possível recorrendo ao clássico “o mundo está contra nós”. E o “mundo” já não pode fazer de conta que ameaça não está lá. Está, em maior número e, por isso, mais barulhenta. Os 82% cá estarão também, para fazer valer a democracia.

Ricardo Fidalgo

Músico